Bem-vindos à Casa de Orates


(Não está respondendo)
26/06/2009, 01:56
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Esses bugs dos programas do windows me inspiraram o post  de hoje. Não está respondendo: resposta padrão de quando algo não está funcionando corretamente. Inclusive, fiquei tempos sem escrever, porque não estava respondendo também.

E tantas outras coisas na vida que também não respondem mais. Tantas coisas em conflito, tanta coisa ainda por fazer. Tanta coisa pra falar… mas de que adianta, se ninguém responde? Permeia no ar um colossal ponto de interrogação: o quê ando fazendo? Que caminho é esse que decidi tomar?

Obviamente, mais que avisado, sabia que não seria fácil. Mas me tira a paciência ficar insistindo em fechar certas janelinhas da minha vida, que simplesmente não respondem. Ficar um ar de indiferença, que me mata.

Não, não vou procurar culpados, ou me esquivar com o o Sarney, dizendo que o problema é da sociedade e não meu. Pertenço, mesmo sem querer ser pertencente. Questiono, mesmo sabendo que meus pensamentos são e foram friamente calculados, premeditados e decodificado. Não por mim, infelizmente.

Fica sempre a sensação de dúvida. A mesma de quando estamos usando o computador e não sabemos até quando ele vai responder.

Fica sempre a sensação de que dependemos essencialmente das respostas dos outros.



O castelo de areia
18/05/2009, 16:09
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Uma ligação recebida no sábado me fez lembrar disso. E reflete meu estado de espírito.

Euzébio era um tatuí boa praça. Desse que todo mundo gosta. Comunicativo, se dava bem tanto com os seus amigos da Praia do Norte quanto os da Praia Formosa. Era curioso isso acontecer, já que os tatuís dessas duas praias definitivamente não se entendiam. Os do Norte achavam os da Formosa muito metidos, porque essa era um reduto quase que deserto. Os do Norte eram constantemente incomodados, principalmente pelas crianças. Acreditavam em algum tipo de superioridade, talvez. Como são muito leves, muitas vezes eram levados de uma ponta à outra do mar. O encontro era inevitável, portanto.

Apesar de tão amigável, Euzébio estava cansado de tudo. Tudo mesmo. Achava que já estava na hora de se aposentar. Não participava mais dos passeios coletivos ao fundo do mar, não queria conversa. Achava que estava velho. E o pior, achava que já conhecia tudo. Tomou tremenda antipatia por tudo. Cansou do sal do mar, do barulho das conchas, do falatório dos peixes.

Estava tão enjoado, que resolveu se manter em retiro. Longe de tudo, sonhava com um castelo que fosse só seu. Vários quartos, janelas, corredores extensos, vários empregados. Era tudo o que queria. Mas como estava cansado, não ousava nem se mexer para realizar seu sonho.

Apesar desse sentimento de que tudo estava perdido e nada mais de agradável aconteceria em sua vida, Euzébio tinha pavor absoluto em imaginar que pudesse parar em alguma frigideira, servindo como tira-gosto dos humanos. Achava que era muita desvalorização, apesar de não acreditar mais num sentido para viver.

Cansado também do buraco que se meteu para o retiro, resolveu ir à superfície olhar a lua, que sempre foi sua única e verdadeira paixão. Observou por uns instantes e sentiu que também estava cansado disso. Como que num cortejo fúnebre, foi caminhando em direção ao buraco em que estava. No meio do caminho, tropeçou num caco de concha que o fez cair no chão. Aliás, não enxergou porque mantinha seus olhos fechados porque eles também estavam cansados.

Quando se levantou, por mais que não quisesse, teve que abrir os olhos para tentar entender o que acontecia. Encontrou de cara o caco que o fez cair. Com os olhos foi acompanhando a direção da concha e não foi acreditando no que via. Na sua frente, inacreditavelmente havia um lindo e perfeito castelo. Exatamente da forma que sempre sonhou. Tudo exatamente como projetou para sua vida. Tudo, tudo.

Parou em frente à porta e bateu três vezes. Como ninguém atendeu, tomou a liberdade de entrar. Não havia nenhuma marca de habitação. O castelo dos seus sonhos estava completamente vazio. Então, a partir daquele momento, o chamou de seu.

Aquilo deu energia à sua vida. Agora não mais estava cansado de tudo. Queria viver um bom tempo ainda para usufruir daquele tesouro que tinha encontrado. Afinal, sempre sonhara com aquilo durante toda a sua existência e justamente quando não acreditava em mais nada, ali estava o castelo, agora sob os seus pés.

Todos logo perceberam a mudança de comportamento. Euzébio voltou a freqüentar as duas praias, saía pra conversar. Afinal, tinha que falar a todos sobre o maior tesouro da sua vida, claro.

Ninguém, portanto, acreditava que ele pudesse ter herdado um castelo de sua tia-avó, conforme a história que ele inventou. Aliás, ninguém nem acreditava na existência do castelo.

Então, para acabar de uma vez por todas com a fama de mentiroso, resolveu marcar um baile com todos os tatuís da Praia do Norte, no salão principal do seu castelo.

Na semana seguinte estavam todos lá, incrédulos com aquilo. O castelo estava completamente entupido. Todos os seus amigos estavam presentes. Apesar de que estavam muito mais interessados em comprovar a existência do castelo do que ir ao baile, era óbvio.

Até dois de seus amigos da Praia Formosa apareceram e foram devidamente barrados pelos seguranças. Para evitar maior alvoroço, foi até a porta para tentar resolver a questão. No meio da conversa, sentiu um primeiro pingo d’água atingir o seu rosto. Menos de um segundo depois, o segundo. O terceiro, o quarto, o quinto. Começou uma tempestade.

Abrigou a todos dentro de seu palácio. Pediu que fossem se acalmando porque a chuva não demoraria a passar. Quando concluiu essa frase, um pedaço enorme do muro despencou como uma peça de dominó quando colocada em pé para se derrubar em seqüência. E foi isso mesmo que aconteceu.

Primeiro foi o muro. Depois parte do telhado. O corredor começou a rachar e a afundar. O pânico, lógico, foi total. Euzébio correu para fora do castelo e viu tudo ruir ali. Sua vida, seu maior sonho estava desmanchado bem ali, diante dos seus olhos. Quis morrer.

Tudo escorreu, exatamente quando se tenta segurar um punhado de areia com as próprias mãos. Sua vida toda também foi assim.



A funcionalidade do analfabetismo
05/05/2009, 00:12
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É recorrente, mas este é um dos assuntos que realmente me incomodam: o analfabetismo funcional. Incomoda pela incapacidade de boa comunicação. Me incomoda pelo fato de ninguém se incomodar.

Há algum tempo foi divulgado um índice em que aponta que de 180 milhões de habitantes, 135 milhões acham que entendem, entendem pouco ou nada do que é dito. Isso é consequência de uma cadeia de fatores: salários indignos para os professores; professores que com baixos salários não buscam elevar sua qualificação; alunos desmotivados pela desmotivação dos professores. E o principal: uma geração de políticos que, além de não se importarem com isso, ainda aproveitam-se da situação – um voto por uma dentadura!

Somado a isso, está a busca incessante de acompanhar a evolução da humanidade – a sociedade da informação – num lugar em que as crianças vão para a aula somente para a merenda. E quando não tem, ficam desconcentradas e pensando onde poderiam comer – saco vazio não para em pé!

Bendita e maldita a pós-modernidade!

Num mundo de facilidades tecnológicas que permitem o acesso direto de pessoas distantes, nasce o comportamento que exige a inclusão num mundo de sites de relacionamentos que, com isso, afasta as pessoas das relações reais – de vida, de trabalho, de cidadania. E cidadania aqui não é aquele blá-blá-blá que vemos por aí, mas do reconhecimento das pessoas como cidadãs, pessoas dotadas de valores, éticas e morais.

As pessoas tem cada vez menos tempo – dialogam menos, leem menos, ouvem menos, escrevem menos – o Twitter só permite 140 caracteres por mensagem. E nessa vida de coisas instantâneas, a efemeridade toma conta de todas as relações: o passa-lá-em-casa tornou-se cada vez mais distante.  Demissões, contratações, namoros via e-mail. Eu sou chato ou parece que tudo isso perdeu seu valor humano? Vizinhos de porta agora conversam pelo MSN, numa linguagem que se afasta da sua realidade – ou alguém fala “miguxo ti dolu” por aí?

E nessa maré de poucas coisas sendo compreendidas, aumenta o número de pessoas endividadas, iludidas pelas pequenas parcelas e/ou com os empréstimos pessoais – veja a facilidade, fazemos desconto em folha! E agora, uma crise fabricada que aponta justamente a falta de pagamento como razão. A gripe suína que, oportunamente, está afastando as pessoas do convívio social.

E todos os dias, 20 milhões de brasileiros assintindo a novela das 8. Talvez seja essa a funcionalidade do analfabetismo.



Sorte de hoje: Procure viver pela paz, não por conflitos
29/04/2009, 23:30
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Sim, é a sorte do Orkut. Confesso que nunca dei muita trela pro que ele me diz, mas dessa vez me fez parar para pensar.

A primeira coisa que me veio a cabeça foi aquela música do Rapa, que questiona que paz é essa que tanto as pessoas falam, ou melhor, não agem. E eu concordo: não é paz, é medo. Medo de mobilizar-se e dar com os burros n’água, de ter a sensação de tempo perdido. Pobre quem pensa que uma luta perdida é perda de tempo. É ganho. Como na velha máxima, é no tempo de crise que mais se cresce.

Na verdade, desconfio dessas pessoas adeptas ao “paz e amor” incondicional. São realmente pacíficas ou acomodadas? Vejo nessas pessoas uma superfície lisa, chapada, sem muito atrito. Como funcionaria o relógio, sem o atrito de suas peças? Como andaria o carro, se não fosse pelo atrito da roda com o asfalto? Não vejo outra função para o atrito a não ser a mobilização.

 Nesse sentido, como sempre poroso, sempre fui mal compreendido. Sempre saí como o argumentador, o brigão, o grosso. Mas existe uma força que me impulsiona, que me faz gritar pr’aquilo que incomoda, ou que está fora do eixo. E que todos passam e fingem que não veem, como um cachorro faminto na calçada.

Acredito sim, que a paz não é abdicação, é construção. E é por ela que eu brigo todos os dias



A desculpa que precede o erro
27/04/2009, 17:21
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Alguns momentos são difíceis de sair da nossa vida. Ainda mais quando estamos porosos. Sentimentos grudam e nem com a espátula da racionalidade conseguimos removê-los. Pessoas são difíceis de sair da nossa vida, por mais que estejamos conscientes dos erros, das incoerências e da não disponibilidade de fazer acertar.

O que fazer quando o tempo, a água e toda a objetividade da vida não removem aquilo que não queremos mais? Talvez digam: é porque você não se livrou completamente, conforme pressupõe. Não nego. Mas certas coisas, como manchas em roupas, necessitam de técnicas específicas. Vi outro dia que para remover chiclete da roupa, é necessário passar gelo, ele sai inteiro. Concordo e levaria talvez isso para a vida. O gelo endurece, mas remove.

O resultado disso pode ser a mudança de visão, de comportamento. Não se consegue ver mais ninguém que não seja a partir dos defeitos. Sei o quê não quero. Fato. E o que eu quero? Com certeza algo que seja diferente daquilo que não quer sair. E o que sai completamente numa superfície porosa? Nada!

O mais angustiante é ter a certeza de que não quero, e o objeto não desejado andar me acompanhando. Não me mobiliza, mas me persegue. Tentei a técnica do gelo. Saiu, endureceu, não gruda mais. Mas e o que ficou nos furinhos dos poros? É uma parte muito pequena, mas que existe ainda.

O pensamento volta-se às desaventuras, aos problemas, a tudo o que passei e que, definitivamente, não quero de volta. Deixei de ser eu, queimei a língua, quebrei a cara. Deixei de lado, joguei tudo fora, deletei de todos os lugares.   Rejeitou tudo, como se eu não existisse. O que aconteceu foi a indiferença.

Que coisa mais estranha, essa indiferença que não sai.

Já que não quer sair, a opção foi passar massa corrida, tapar os poros. Até matar por falta de respiração. Sem piedade, sem mágoas, sem qualquer outra desculpa.

Agora não é hora pra saber se é certo ou errado.



Contemplação em estado maior
22/04/2009, 02:53
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Hoje tirei o dia para contemplar. Dias chuvosos e meu estado de porosidade sempre me deixam mais pensativo. Embora essas mesmas condições também me levem ao distúrbio de coisas, de atenções do que pode estar na minha frente e, mesmo inconscientemente, não queira entender.

Diante da necessidade ansiolítica de escrever, de traduzir o q sinto, decodificar sonhos, impressões e angústias, perco o tempo que precisaria para entender tudo isso. Torno-me então, um analfabeto funcional de emoções. Muitas vezes coisas são ditas e escutadas.Mas o cérebro, sabendo de tudo, processa errado as informações. Tudo isso propositalmente combinado, numa eterna fuga. Eterna luta do sentir e não querer. Não exatamente aquilo que chega para ser contemplado.

Contemplar é mais que olhar.  É estar tão poroso àquilo que se apresenta, que você é capaz de se misturar às fibras do objeto. Seja a natureza, uma obra de arte ou uma pessoa. Você simplesmente não entende como pôde viver tantos anos sem pertencer àquilo e acredita que o objeto é tão incrivelmente bom, que pode nem ser merecido. E o que se faz? Contempla-se. Mas é bom avisar aos marinheiros de primeira contemplação, que é um estado a ser alcançado: é preciso pegar, sentir, entender, apaixonar-se e assim sim, um portal cósmico se abre à sua frente e você entra nessa dimensão.

Agora, por questões pessoais, imagino a contemplação de uma pessoa. Quão bela, justa e boa ela deve ser para que se alcance este nível de visão. Remeto-me agora, invariavelmente, às questões do analfabetismo funcional das emoções. Porque, invariavelmente, queremos sentir o que não está dito e na confusão das confusões, achamos que estamos contemplando e na verdade, nem vendo estamos.

E essa turbulência toda acontece impreterivelmente, quando uma relação se acaba. Quando, por algum motivo você percebe que na verdade, a justificativa para que tudo acontecesse, é de que seu coração é míope. (E talvez ficando esquizofrênico.)



Ser diferente é normal?
20/04/2009, 07:11
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É a pergunta que me faço todo dia, ainda mais diante dos últimos acontecimentos. Um ser que muda de identidade e busca reconhecer o que tem de si numa nova pessoa. E procura. E encontra. E se perde.

Por que buscar as diferenças, uma condição humana, não é tão diferente assim. É normal. E o que me faz sentir diferente das demais pessoas? Talvez minha história de vida. Mas existem milhares de outras histórias tristes por ai. Ondas passam, limpam a areia. Mas o mar permanece o mesmo.

Vejo pessoas que fizeram a diferença, se destacaram. Nas suas profissões, nos seus pensamentos, nas suas loucuras. Milhares de pessoas que as seguiram. Che, Ghandi, Lula, Mandela. Partindo do princípio de que pensavam diferente, o fato de ter pessoas que pensam de mesma maneira  e os seguem acaba com esse estereótipo da diferença. Tornam-se todos iguais.

E na busca incessante pelas diferenças, as pessoas tornam-se todas iguais. Iguais na busca pela diferença, diferentes formas de ser iguais.

E insisto na pergunta: então, por que eu sou diferente? O que responder quando me perguntam isso? O que responder às pessoas que buscam em você alguma diferença? Que esperam apaixonar-se? Quem veem em você algo novo, diferente?

Lembro-me que na graduação certa vez me falaram: a inovação não existe mais, porque a própria concepção de inovar já não é mais nova.

Transmito esse pensamento ao post de hoje: como ser diferente, se a concepção de diferença nos torna todos iguais?



Quem não se comunica, se trumbica
16/04/2009, 05:29
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Assim começa o samba do Império Serrano, de 1987, parafraseando o Velho Guerreiro, Chacrinha. Isso mesmo, 1987. Olha que naquela época nem existia celular, quiçá internet, blog então… pelo menos no Brasil. A questão que levanto é: depois de 22 anos desse samba (que abaixo coloco a letra na íntegra), com todas as tecnologias a favor, as pessoas comunicam-se cada vez menos.

O que nos diferencia dos demais animais é a capacidade de comunicação intencional – falo porquê quero falar e pronto! – e a usamos cada dia menos. Outro dia entrei no metrô e contei a quantidade de pessoas com seus mp3, 4, 5, 6, 7,8,9, um milhão, com os fones nos ouvidos, absolutamente indiferentes ao que se passava ali e às demais pessoas. Ao mesmo tempo, me julguei Casmurro demais – será que é mais uma arma do  sistema para afastar as pessoase desarticular o pensamento de massa? Sei que ando lendo muito sobre teoria da conspiração…

É por isso que eu não me rendo a esse tipo de equipamento e comportamento: oras, a língua é o meu meio de trabalho e as pessoas estão acabando com ela. Sempre me disseram que era viva pelo uso, mas quanto menos se fala, cada vez ela vai ficando murcha. E sem graça. E desarticulada. Aí será preciso uma grande mobilização de fisioterapia intelectual – uma reabilitação cerebral – para que a língua seja usada na sua forma mais devida:  da comunicação, da expressão.

Ou é a toa que 75% da população brasileira, entre 16 e 64 anos, é analfabeta funcional? Acretidem: a cada 10 pessoam que lerem o que escrevo, menos de três entenderão em plenitude o que quero dizer. Talvez seja severo demais, ou faça uma leitura muito ácida da vida, mas vejo um grande esquemão para que as pessoas a cada dia se expressem menos, falem menos, pensem menos. Notícias que se dissolvem após criarem um impacto que logo se tranquiliza.

Fico imaginando a seguinte situação: O Zezinho, 35 anos, fez até a quarta-série e resolve escrever uma carta para o Pedrão, de 60 anos, seu pai, que só sabe assinar o nome. Aí pede que a filha mais nova, que conseguiu estudar até a primeira série, que leia a carta para ele. Meu Deus… a confusão está armada! A falta de prática da escrita se aliará à falta de prática de leitura. E a carta, que seria um grato sinal de alegria, se transformará num Mutante da Record – mal elaborado, sem sentido, feio e, por essas características, engraçado.

Falam por aí que ninguém se manifesta mais. Meu voto é de que não sabemos mais nos expressar conforme antigamente. Ou, como viviam os autores e compositores antes do celular, da internet e de todas as facilidades tecnológicas? Não temos a impressão de que tudo que é antigo tem mais emoção e, consequentemente, é melhor escrito do que hoje?  Talvez seja essa a explicação. Os meios de informação transformaram as pessoas em meras ouvintes, sem capacidade intelectual para reagir ao que são expostas – ou alguém me dê outra explicação para a quantidade de informação num site, as informações picotadas nos telejornais, nos impressos. Quanto mais coisas em menor tempo de exposição, menor será a capacidade a adsorção. Isso é comprovado. Comunicólogos que atirem a primeira pedra!

 Somos intransigentes e intolerantes por que não nos comunicamos mais.  Não existe mais a oportunidade de consertar mal-entendidos, desabafar escrevendo – diário é coisa de mulherzinha!. O negócio é dar porrada, como diz o sábio personagem da televisão. Com a falta de expressividade, vai-se embora também a sensibilidade de perceber coisas, de falar ou até mesmo de fazer silêncio quando preciso. Partir para agressão é arma de quem não tem argumentos. Embora deva confessar que também tenho vontade de dar umas boas porradas em “neguim” por aí.

Enfim, um imenso e assombroso ruído instalou-se entre o emissor e o receptor: a vulnerabilidade e a insconstância da identidade pós-moderna. Bom pensamento para se inaugurar um blog, concordam?

 

Abaixo, a letra do samba que havia prometido

 

COM A BOCA NO MUNDO – QUEM NÃO SE COMUNICA SE TRUMBICA

Se liga, ligação vai ser preciso, ô
Aviso, o verbo é comunicar
Caminha nem pestanejou
Como agente da passiva se comunicou

Vai, pombo correio
De permeio na imensidão
Voa e vá dizer ao meu amor
Que a saudade machucou meu coração (bis)

Pregoa, pregoeiro
O mercado é todo seu
Independência ou morte
Grito forte que valeu
Ô de casa, olha o carteiro
É a carta de quem nunca lhe esqueceu

Jornal, jornaleiro, jornalista
Reportagem em revista
A Imprensa em comunhão
Tudo em primeira mão

Alô, alô, alô, alô, alô
Não se comunicou, dançou (bis)

A rádiodifusão está no ar
Seu sucesso é notório
Fez tanto artista popular
Novelas, programas de auditório
Indiscutivelmente, é a era da televisão
O tão distante presente
Se faz presente e satisfaz nossa visão
Até a Lua lá no céu
Nos chega via Embratel

Quem não se comunica
Se trumbica e como fica
Fica na saudade, fica (bis)




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