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Assim começa o samba do Império Serrano, de 1987, parafraseando o Velho Guerreiro, Chacrinha. Isso mesmo, 1987. Olha que naquela época nem existia celular, quiçá internet, blog então… pelo menos no Brasil. A questão que levanto é: depois de 22 anos desse samba (que abaixo coloco a letra na íntegra), com todas as tecnologias a favor, as pessoas comunicam-se cada vez menos.
O que nos diferencia dos demais animais é a capacidade de comunicação intencional – falo porquê quero falar e pronto! – e a usamos cada dia menos. Outro dia entrei no metrô e contei a quantidade de pessoas com seus mp3, 4, 5, 6, 7,8,9, um milhão, com os fones nos ouvidos, absolutamente indiferentes ao que se passava ali e às demais pessoas. Ao mesmo tempo, me julguei Casmurro demais – será que é mais uma arma do sistema para afastar as pessoase desarticular o pensamento de massa? Sei que ando lendo muito sobre teoria da conspiração…
É por isso que eu não me rendo a esse tipo de equipamento e comportamento: oras, a língua é o meu meio de trabalho e as pessoas estão acabando com ela. Sempre me disseram que era viva pelo uso, mas quanto menos se fala, cada vez ela vai ficando murcha. E sem graça. E desarticulada. Aí será preciso uma grande mobilização de fisioterapia intelectual – uma reabilitação cerebral – para que a língua seja usada na sua forma mais devida: da comunicação, da expressão.
Ou é a toa que 75% da população brasileira, entre 16 e 64 anos, é analfabeta funcional? Acretidem: a cada 10 pessoam que lerem o que escrevo, menos de três entenderão em plenitude o que quero dizer. Talvez seja severo demais, ou faça uma leitura muito ácida da vida, mas vejo um grande esquemão para que as pessoas a cada dia se expressem menos, falem menos, pensem menos. Notícias que se dissolvem após criarem um impacto que logo se tranquiliza.
Fico imaginando a seguinte situação: O Zezinho, 35 anos, fez até a quarta-série e resolve escrever uma carta para o Pedrão, de 60 anos, seu pai, que só sabe assinar o nome. Aí pede que a filha mais nova, que conseguiu estudar até a primeira série, que leia a carta para ele. Meu Deus… a confusão está armada! A falta de prática da escrita se aliará à falta de prática de leitura. E a carta, que seria um grato sinal de alegria, se transformará num Mutante da Record – mal elaborado, sem sentido, feio e, por essas características, engraçado.
Falam por aí que ninguém se manifesta mais. Meu voto é de que não sabemos mais nos expressar conforme antigamente. Ou, como viviam os autores e compositores antes do celular, da internet e de todas as facilidades tecnológicas? Não temos a impressão de que tudo que é antigo tem mais emoção e, consequentemente, é melhor escrito do que hoje? Talvez seja essa a explicação. Os meios de informação transformaram as pessoas em meras ouvintes, sem capacidade intelectual para reagir ao que são expostas – ou alguém me dê outra explicação para a quantidade de informação num site, as informações picotadas nos telejornais, nos impressos. Quanto mais coisas em menor tempo de exposição, menor será a capacidade a adsorção. Isso é comprovado. Comunicólogos que atirem a primeira pedra!
Somos intransigentes e intolerantes por que não nos comunicamos mais. Não existe mais a oportunidade de consertar mal-entendidos, desabafar escrevendo – diário é coisa de mulherzinha!. O negócio é dar porrada, como diz o sábio personagem da televisão. Com a falta de expressividade, vai-se embora também a sensibilidade de perceber coisas, de falar ou até mesmo de fazer silêncio quando preciso. Partir para agressão é arma de quem não tem argumentos. Embora deva confessar que também tenho vontade de dar umas boas porradas em “neguim” por aí.
Enfim, um imenso e assombroso ruído instalou-se entre o emissor e o receptor: a vulnerabilidade e a insconstância da identidade pós-moderna. Bom pensamento para se inaugurar um blog, concordam?
Abaixo, a letra do samba que havia prometido
COM A BOCA NO MUNDO – QUEM NÃO SE COMUNICA SE TRUMBICA
Se liga, ligação vai ser preciso, ô
Aviso, o verbo é comunicar
Caminha nem pestanejou
Como agente da passiva se comunicou
Vai, pombo correio
De permeio na imensidão
Voa e vá dizer ao meu amor
Que a saudade machucou meu coração (bis)
Pregoa, pregoeiro
O mercado é todo seu
Independência ou morte
Grito forte que valeu
Ô de casa, olha o carteiro
É a carta de quem nunca lhe esqueceu
Jornal, jornaleiro, jornalista
Reportagem em revista
A Imprensa em comunhão
Tudo em primeira mão
Alô, alô, alô, alô, alô
Não se comunicou, dançou (bis)
A rádiodifusão está no ar
Seu sucesso é notório
Fez tanto artista popular
Novelas, programas de auditório
Indiscutivelmente, é a era da televisão
O tão distante presente
Se faz presente e satisfaz nossa visão
Até a Lua lá no céu
Nos chega via Embratel
Quem não se comunica
Se trumbica e como fica
Fica na saudade, fica (bis)
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