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Uma ligação recebida no sábado me fez lembrar disso. E reflete meu estado de espírito.
Euzébio era um tatuí boa praça. Desse que todo mundo gosta. Comunicativo, se dava bem tanto com os seus amigos da Praia do Norte quanto os da Praia Formosa. Era curioso isso acontecer, já que os tatuís dessas duas praias definitivamente não se entendiam. Os do Norte achavam os da Formosa muito metidos, porque essa era um reduto quase que deserto. Os do Norte eram constantemente incomodados, principalmente pelas crianças. Acreditavam em algum tipo de superioridade, talvez. Como são muito leves, muitas vezes eram levados de uma ponta à outra do mar. O encontro era inevitável, portanto.
Apesar de tão amigável, Euzébio estava cansado de tudo. Tudo mesmo. Achava que já estava na hora de se aposentar. Não participava mais dos passeios coletivos ao fundo do mar, não queria conversa. Achava que estava velho. E o pior, achava que já conhecia tudo. Tomou tremenda antipatia por tudo. Cansou do sal do mar, do barulho das conchas, do falatório dos peixes.
Estava tão enjoado, que resolveu se manter em retiro. Longe de tudo, sonhava com um castelo que fosse só seu. Vários quartos, janelas, corredores extensos, vários empregados. Era tudo o que queria. Mas como estava cansado, não ousava nem se mexer para realizar seu sonho.
Apesar desse sentimento de que tudo estava perdido e nada mais de agradável aconteceria em sua vida, Euzébio tinha pavor absoluto em imaginar que pudesse parar em alguma frigideira, servindo como tira-gosto dos humanos. Achava que era muita desvalorização, apesar de não acreditar mais num sentido para viver.
Cansado também do buraco que se meteu para o retiro, resolveu ir à superfície olhar a lua, que sempre foi sua única e verdadeira paixão. Observou por uns instantes e sentiu que também estava cansado disso. Como que num cortejo fúnebre, foi caminhando em direção ao buraco em que estava. No meio do caminho, tropeçou num caco de concha que o fez cair no chão. Aliás, não enxergou porque mantinha seus olhos fechados porque eles também estavam cansados.
Quando se levantou, por mais que não quisesse, teve que abrir os olhos para tentar entender o que acontecia. Encontrou de cara o caco que o fez cair. Com os olhos foi acompanhando a direção da concha e não foi acreditando no que via. Na sua frente, inacreditavelmente havia um lindo e perfeito castelo. Exatamente da forma que sempre sonhou. Tudo exatamente como projetou para sua vida. Tudo, tudo.
Parou em frente à porta e bateu três vezes. Como ninguém atendeu, tomou a liberdade de entrar. Não havia nenhuma marca de habitação. O castelo dos seus sonhos estava completamente vazio. Então, a partir daquele momento, o chamou de seu.
Aquilo deu energia à sua vida. Agora não mais estava cansado de tudo. Queria viver um bom tempo ainda para usufruir daquele tesouro que tinha encontrado. Afinal, sempre sonhara com aquilo durante toda a sua existência e justamente quando não acreditava em mais nada, ali estava o castelo, agora sob os seus pés.
Todos logo perceberam a mudança de comportamento. Euzébio voltou a freqüentar as duas praias, saía pra conversar. Afinal, tinha que falar a todos sobre o maior tesouro da sua vida, claro.
Ninguém, portanto, acreditava que ele pudesse ter herdado um castelo de sua tia-avó, conforme a história que ele inventou. Aliás, ninguém nem acreditava na existência do castelo.
Então, para acabar de uma vez por todas com a fama de mentiroso, resolveu marcar um baile com todos os tatuís da Praia do Norte, no salão principal do seu castelo.
Na semana seguinte estavam todos lá, incrédulos com aquilo. O castelo estava completamente entupido. Todos os seus amigos estavam presentes. Apesar de que estavam muito mais interessados em comprovar a existência do castelo do que ir ao baile, era óbvio.
Até dois de seus amigos da Praia Formosa apareceram e foram devidamente barrados pelos seguranças. Para evitar maior alvoroço, foi até a porta para tentar resolver a questão. No meio da conversa, sentiu um primeiro pingo d’água atingir o seu rosto. Menos de um segundo depois, o segundo. O terceiro, o quarto, o quinto. Começou uma tempestade.
Abrigou a todos dentro de seu palácio. Pediu que fossem se acalmando porque a chuva não demoraria a passar. Quando concluiu essa frase, um pedaço enorme do muro despencou como uma peça de dominó quando colocada em pé para se derrubar em seqüência. E foi isso mesmo que aconteceu.
Primeiro foi o muro. Depois parte do telhado. O corredor começou a rachar e a afundar. O pânico, lógico, foi total. Euzébio correu para fora do castelo e viu tudo ruir ali. Sua vida, seu maior sonho estava desmanchado bem ali, diante dos seus olhos. Quis morrer.
Tudo escorreu, exatamente quando se tenta segurar um punhado de areia com as próprias mãos. Sua vida toda também foi assim.
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